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24 Jul 2017

No quintal/brejo da casa de sua família, onde as redes de espera e tarrafas estão penduradas em árvores e os barcos e jequiás encostados desde 2015, Adailton ao ler o sermão de Santo António aos Peixes de Padre António Vieira (1654) lembrou-se da parábola "Se os tubarões fossem homens", uma resposta do Senhor K à pergunta de uma menina que busca saber se os tubarões seriam mais agradáveis para os pequenos peixes se fossem pessoas. Na resposta do personagem, Bertold Brecht (1898-1956) revela a desumanidade opressora de um sistema em analogia a um mundo onde todos os aspectos contribuem para exercer um controle absoluto sobre a vida. Compartilhamos um link da leitura do texto por Antônio Abujamra:

 

18 Jul 2017

limites de areia e mar

recorrentes paisagens à beira

móveis e sinuosas

reiteram sombras em refluxo

e recomeçam

sempre

um quociente de intensidade - líquido e tão sólido

suspende e impacta o que lá estava

escorre

libidinal e efêmero sobre o continente

o que emerge da arrebentantação?

o que permanece e se cria nesse átimo perceptivo?

cada concha, cada pequeno graveto e folha

gastos pelo tempo, pelo sal e metal

encontra uma nova cartografia

aquarela terrosa cintila no horizonte líquido

limiar de nutrição e abuso

o rio conta ao mar a sua sorte

galhos resilientes amanhecem suspensos nas falésias

testemunham os contornos da costa

polida pelo movimento curvo

cortante e inflamável da memória

Todos se alimentam desse rio-mar. O extenso leito, há décadas intoxicado pela ganância e ignorância de práticas abusivas, hoje desafia e desconcerta com sua força de resistência e criação.  A vila de Regência, alheia ao lucro trimestral de 7,9 bilhões de reais1, paga o ônus do maior crime ambiental da história. Os bancos áridos...

17 Jul 2017

No início - uma viagem motivada pelo desejo de experienciar um lugar e a partir do deslocamento vivenciar o espaço e o encontro com pessoas. Como preparação - uma base de informações constituída por textos, filmes, imagens e mapas extraídos de sites, jornais e bases cartográficas. A chegada revelou horizontes imprecisos, com pontos de partida e especulações pautadas em conhecimentos previamente socializados.

Percorrendo os lugares dentro e fora dos mapas, algumas situações misturam-se a histórias e imagens vistas e imaginadas. No traçado sistemático de linhas representativas, de longitude e latitudes, registradas no mapa, o visto e encontrado não substituiu o desconhecido ou mesmo supriu as informações acumuladas. Ele revelou um tipo de abertura do visível.

Num destes momentos nos deparamos com um monte de terra entre a vila de Regência e a comunidade de Areal.

Qual sua origem? Por onde passou? Como chegou a esta configuração? Imaginamos os depósitos argilosos concebidos ao longo da forma...

10 Jul 2017

Na vila de Regência, vários tipos de redes de pesca (redes de espera, redes de calão, tarrafas...) estão suspensas nos quintais das casas dos pescadores. As redes ficam esticadas entre dois pilares, e muitas vezes, penduradas em grandes árvores. 

De onde vem esse hábito e para que serve? Aparentemente, esta é uma maneira de arrumar e armazenar as redes, esticá-las para que não percam a forma e elasticidade (pois o náilon é frágil), conservá-las fora do sol direito, da umidade ou da poeira do chão. O pescador Zé de Sabino afirmou com certo orgulho que ele foi o primeiro a iniciar essa prática de pendurar as redes em árvores. Alguns pescadores que fabricam novas redes - as costurando a mão- as põem nas árvores do solar da casa na intenção de vendê-las, com é o caso de seu Darcy e suas belas tarrafas.

Mas, além dessas explicações práticas, surgem algumas perguntas. A beleza visual dessas “instalações” é a mera consequência involuntária de uma escolha técnica ou também resulta de uma intençã...

19 Jun 2017

Mãe Edna gosta de conversar e de contar histórias. Com uma facilidade desconcertante (para mim), ela passa de um registro da realidade a um outro. São lembranças encantadas da infância em Regência há 60 anos, expressão de saudade de um pai tão amado, visões da mediunidade e diálogos íntimos com suas numerosas “entidades” sobrenaturais (Boiadeiro das Almas, Caboclo Sete Flechas, alguns Orixás...), cantos e rezas, comentários lúcidos sobre a vida, rememorações de encontros marcantes... Tudo isso se mistura no fluxo de uma narrativo cheia de poesia e de magia. Ouvi-la é se deixar levar pelas circunvoluções barrocas da oralidade, no prazer de compartilhar a experiência de uma vida muito singular, marcada por múltiplas formas de transcendência.

Depois de morar décadas na região de Vitoria, Dona Edna, mãe-de-santo iniciada na Umbanda desde criança, voltou a viver recentemente na vila de Regência, por ter sido chamada pelas suas entidades.

Ela passou boa parte da sua infância, de 7 as 14 anos d...

19 Jun 2017

Todo um imaginário atravessa os objetos, as técnicas e os conhecimentos ligados a pesca artesanal. Na foz do Rio Doce, iniciei uma pesquisa sobres as armadilhas de pesca tradicionais.

Na festa do Caboclo Bernado, em Regência, durante as apresentações das bandas de Congo, conheci seu Simião. Além de famoso construtor de barcos e pescador, Simião é um líder comunitário e o presidente da associação dos pescadores de Povoação, uma vila vizinha, com 600 famílias, que fica entre o rio, o mar e a lagoa. Na manhã seguinte da festa, coloquei a bicicleta no barco de dois pescadores, atravessei a boca da barra com eles, e pedalei uns 8 km até Povoação. Simião me recebeu com carinho, mostrou a vila e os arredores, contou parte da história do lugar e da pesca local. Me apresentou um amigo dele um pouco mais velho. Seu Arnaldo, hoje com 88 anos, tem uma vida dedicada a pesca. Ele só parou de pescar e de confeccionar os jequiás porque quase perdeu a visão. O jequiá (ou jequí) é uma armadilha artesanal...

6 Jun 2017

Realizar um viagem de 12 horas de trem foi uma proposta de entender este percurso ( Belo Horizonte -  Vitória ) e o quanto a história do Rio Doce está relacionado com a criação e utilização da Mineradora Vale. Utilizando os videos dos celulares dos artistas que estavam na composição (Ana Emerich, Eloisa Brantes, Mauricio Lima, Mauricio Topal e Thais Chilinque) amplio o olhar a partir do enfoque de cada artista reunindo numa narrativa audio-visual. Boa viagem.

4 Jun 2017

27 bandas de Congo do Estado de Espírito Santo e Minas Gerais começaram a chegar aos poucos no domingo de manhã.  A força coletiva dos ritmos, cantos e danças mobilizam energias vitais, espirituais e sensuais.  A devoção dos corpos me escapa e me atravessa. Os Santos louvados transbordaram de alegria. A igreja aberta dispensa a presença de padres. O diálogo entre devotos e Santos é íntimo e festivo ao mesmo tempo. Testemunho a potência do sagrado em dádivas de si. Gestos generosos alargam o senso da festa. No ritmo do Congo as pessoas se entregam ao corpo que é alma. Na alegria dos encontros quase ninguém se cansa. Quem cansa descansa para tornar a tocar e dançar. A intensidade do tempo é infinita. No final da festa Zé da Casaca, um homem forte, exímio tocador de casaca e bom bebedor de cachaça, me confessa sua tristeza em retornar ao trabalho no dia seguinte. Mas sorrindo ele tem a certeza de voltar no próximo ano.  

FOTO: Jérôme Souty

FOTO: Jérôme Souty

FOTO: Jérôme Souty

Zé da...

4 Jun 2017

"Ainda que beirando o chão,

Ainda que emitindo uma luz bem fraca,

Ainda que se deslocando lentamente,

Não desenham os vaga-lumes - rigorosamente falando - uma constelação?

Afirmar isso a partir do minúsculo exemplo dos vaga-lumes é afirmar que em nosso modo de imaginar jaz, fundamentalmente, uma condição para nosso modo de fazer política.

A imaginação é política. Eis o que precisa ser levado em consideração".

[Georges Didi-Huberman em "Sobrevivência dos Vaga-Lumes" - trechos]

3 Jun 2017

Em Belo Horizonte pegamos o trem da Vale que partiu as 7:30.  A paisagem vista da Estrada de Ferro Vitória-Minas sinaliza os rumos do desenvolvimento econômico. Um futuro amargo cheio de progresso passado. O trem da Mineradora Multinacional Vale que explora a região, se divide em duas classes sociais e anda bem devagarzinho. A voz microfonada anuncia orgulhosa que estamos no único trem que funciona diariamente no Brasil para transporte de passageiros.  1 milhão de pessoas transportadas a cada ano.  Penso nessas pessoas. Onde elas vivem e qual o destino delas. Na televisão passa filmes de Walt Disney. Atravesso a lanchonete com cheiro forte de gordura. Da janela vejo infinitos trens de carga que passam. Cada vagão leva duas toneladas e meia de minérios. Cada trem desloca 280 vagões. Quantos trens de carga da Vale saem diariamente de Minas Gerais em direção ao porto de Vitória? Pequenas cidades atreladas às 52 estações parecem surgir do nada.  Trilhos de ferro, vagões e mineradoras corta...

3 Jun 2017

Auto do Caboclo Bernardo encenado pela Cia de Artes Regência Augusta. O grupo de teatro da Vila conta a vida deste herói adorado na foz do Rio Doce.  

Caboclo Bernardo
Nativo da Vila de Regência, salvou a tripulação do navio Imperial Marinheiro, enviado em 1887 para traçar a carta náutica da costa norte capixaba, a fim de evitar o naufrágio das embarcações que transitavam no Rio Doce. Muitas delas encalhavam nos recifes e bancos de areia situados na foz do Rio Doce, onde este navio também naufragou. Caboclo Bernardo sozinho, segurando uma corda nos dentes, se lançou ao mar cinco vezes e salvou 128 homens da tripulação do naufrágio. Princesa Isabel o condecorou como herói nacional. Caboclo Bernardo era descendente dos índios botocudos que habitavam a região. Sua coragem parece ecoar a bravura destes índios, que resistiram as violentas ações e políticas de extermínio da colonização branca. Mas esta parte da história ainda não foi bem contada.

De noite saímos da festa para ver o rio. Ao che...

2 Jun 2017

Foto: Jerome Souty 

A banda de Congo com mulheres, crianças e homens, toca na praça e segue cantando até entrar na sala sede da associação de moradores.  Estamos na cerimônia de abertura oficial da festa do Caboclo Bernardo. Deputados e Vereadores do Município de Linhares, devidamente engravatados, se elogiam mutuamente e prometem dias melhores aos moradores da Vila de Regência. O tom dos discursos contrasta com a vitalidade sonora da banda de Congo. A presença do Mestre do Congo exala respeito. Uma deputada fala das dificuldades dos moradores de Povoação com a chegada da lama e pede ajuda para esta comunidade de pescadores que vive do outro lado do Rio Doce. A autoridade do mestre Guimaldo traz a força dos tambores na leveza da dança. Seu corpo rege, luta, brinca e louva.  

2 Jun 2017

A marca da água mineral esquecida na Estação Piraqueaçu/ ES me intriga. O rótulo da garrafa  me fala dos índios Krenak vivendo a morte do Rio Doce.  Dias depois vejo na internet que esta água tirada das “fontes cristalinas” do Parque dos Sete Salões é muito saudável. A fonte de águas puras se situa em território sagrado dos índios Krenak, que de lá foram retirados pelos agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) em 1958. Após décadas de luta pela sua terra de pertencimento no vale do Rio Doce, a Reserva Indígena Krenak foi formalizada pela Justiça em 1997 (Município de Resplendor/ MG). Mas a reivindicação pela inclusão das terras do Parque Estadual dos Sete Salões à Reserva Indígena é uma luta atual dos Krenak. A sacralidade das cavernas e da natureza  no simbolismo desse território são partes da ancestralidade dos Krenak* que após a chegada da lama no Rio Doce sobrevivem com o fornecimento de água em carros pipa.  
 

*Território Sagrado: Exílio, Diáspora e Reconquis...

1 Jun 2017

Extração de minério no trecho Bh-Vitória / Foto: Eloísa Brantes

Coincidência. O dia em que a equipe completa de “Volume Morto” chega na Vila de Regência, Donald Trump decide a saída unilateral dos Estados Unido do Acordo de Paris sobre o Clima. Em dezembro de 2015, 194 países assinaram esse documento histórico com o compromisso de conter o aumento da temperatura global. Ora, o presidente do segundo país com maior impacto no aquecimento global, e da primeira potência econômica, diplomática e militar do planeta, foge das suas responsabilidades deixando o mundo em chamas.


A situação atual de pequena vila Regência na boca do Rio Doce é indissociável do crime socioambiental da Samarco (VALE/ BHP Billiton), que desde novembro de 2015 atingiu o Rio Doce - um dos maior rio do Brasil - em quase todo o seu comprimento. 

Mas esse crime socioambiental – provavelmente o maior que o Brasil já conheceu -, participa também de um cenário dominante cujo paradigma global ultrapassa as fronteiras do Brasil...

31 May 2017

Fazer a mala e esvaziar os ouvidos.

Rever faixas sonoras compostas para o espetáculo “volume morto” (2016) e durante as imersões com o Coletivo Liquida Ação até então. Reler anotações que contaminam aquele contexto.

Revisitar imagens e sons de meus trabalhos recentes ou que seguem em processo: Scordatura n.4, Pequeno Manual para um fenômeno atmosférico e Demarcações – objeto propositivo para uso comum do espaço. Cada um deles, à sua maneira, parece fomentar um reservatório de possíveis para os gestos que se apresentam como ideias iniciais da pesquisa por vir.

Há livros e escritos que estão latentes e que podem conectar-se às suspeitas de criação que meu imaginário começa a esboçar antes da partida: “A queda do céu” (Davi Kopenawa e Bruce Albert) e “Como se caísse devagar” (Annita Costa Malufe). Há um caderno de anotação, com pedaços de vontades, dúvidas e outros escapes do pensamento. Objetos, materialidades? Deixar que o lugar determine. Dentro da mala cabe, ainda, um cesto invisível par...

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June 4, 2017

June 3, 2017

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