A intoxicação do Rio Doce pela lama de rejeitos de minérios é uma mutilação física e simbólica da vida. 

A saúde do rio já estava debilitada antes de estourar a barragem do Fundão (Samarco - Vale do Rio Doce e BHP Billition). Devido a poluição e o assoreamento o rio perdia suas forças de desaguar no mar. Vila de Regência a água do rio doce era salobra. O mar entrava no rio adoecido.

Após a chegada da lama na foz do rio doce (ES), no dia 20 de novembro 2015, a pesca foi interditada e a água para consumo passou a ser fornecida por caminhões pipa.

O imaginário das pessoas que moram em torno do rio, o estado atual de suas vidas, do meio ambiente e das águas, são focos de atenção do projeto realizado após um ano e meio do crime/tragédia ambiental. 

 

De que forma a imersão de artistas-pesquisadores nesta realidade traumática pode participar e contribuir com a reelaboração do imaginário coletivo?

 

Esta questão é o ponto de partida para residência coletiva da equipe de artistas e pesquisadores na vila de Regência, onde o Rio Doce deságua no Oceano Atlântico. 

 

A residência artística como via de acesso a diferentes aspectos da vida cotidiana e das mutações ambientais causadas pelo crime-desastre ambiental, inclui ações conjuntas, colaborações e parcerias com biólogos, pescadores, organizações sociais independentes voltadas para a recuperação do rio e participação (direta ou indireta) dos moradores de Regência (ES). 

O deslocamento inicial de trem, percorrendo as margens do Rio Doce é parte da pesquisa. Vivenciar a extensão do Rio Doce sobre os trilhos do trem, construído pela Vale do Rio Doce, que carrega a própria história da mineração predatória na região é ativar um olhar crítico sobre a produção de rejeitos de minérios.    

Imagens, vídeos, textos, ações e sonoridades extraídas do percurso de trem e do convívio entre a equipe e moradores da vila, durante a residência artística, são os suportes de anotações etnográficas e poéticas, a serem utilizadas nas experiências cênicas e performances de intervenção na Foz do Rio Doce. Artistas de dança, artes visuais, arte sonora, teatro e um antropólogo irão trabalhar em conjunto com os moradores.

Quais são as vozes e narrativas de quem vive e convive com o Rio Doce? Como corporificar memórias e esquecimentos? Até que ponto os processos criativos, em diferentes linguagens artísticas podem dialogar com a emergência de imaginários locais?

 

Estas questões envolvem saberes da oralidade, mitos, lendas e projeções imagéticas. As experiências cênicas e performances de intervenção na vila pretendem traçar conexões corpo-memória-ambiente através da sobreposição de vozes, imagens, ações, espaços, textos e outras materialidades geradas pelos encontros entre a equipe e os moradores. 

 

As experiências de pesquisa e criação realizadas durante a residência artística continuaram em desenvolvimento no Rio de Janeiro, entre julho e setembro 2017. A Ocupação FOZ AFORA no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto finalizou este projeto com exposição, lançamento de uma publicação, experiências cênicas, mesas de conversa sobre o Rio Doce e a presença de artistas convidados da Vila de Regência : Cia de Artes Regência Augusta e Banda Natividade. 

Confira as ações da Ocupação FOZ AFORA. 

 

Sobre Vila de Regência Augusta

Regência (Município de Linhares- E.S) é uma vila de pescadores com 1.800 habitantes que viviam da pesca e do turismo em torno do rio e do mar. A praia protegida como reserva ecológica desde 1985 (Projeto TAMAR) garante a desova de tartarugas marinhas, que sempre retornam ao local onde nasceram para depositarem seus ovos. Além da beleza natural, a qualidade das ondas para prática do surf atrai muitos turistas. As tradições locais do Congo do Caboclo Bernardo (herói) testemunham a riqueza do lugar.  Antes da colonização branca que iniciou a exploração predatória do Rio Doce, o local foi habitado pelos índios botocudos que sofreram todo o tipo de violência dos colonizadores dedicados ao seu extermínio. 

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