limites de areia e mar

July 18, 2017

limites de areia e mar

recorrentes paisagens à beira

móveis e sinuosas

reiteram sombras em refluxo

e recomeçam

sempre

um quociente de intensidade - líquido e tão sólido

suspende e impacta o que lá estava

escorre

libidinal e efêmero sobre o continente

o que emerge da arrebentantação?

o que permanece e se cria nesse átimo perceptivo?

cada concha, cada pequeno graveto e folha

gastos pelo tempo, pelo sal e metal

encontra uma nova cartografia

aquarela terrosa cintila no horizonte líquido

limiar de nutrição e abuso

o rio conta ao mar a sua sorte

galhos resilientes amanhecem suspensos nas falésias

testemunham os contornos da costa

polida pelo movimento curvo

cortante e inflamável da memória

 

Todos se alimentam desse rio-mar. O extenso leito, há décadas intoxicado pela ganância e ignorância de práticas abusivas, hoje desafia e desconcerta com sua força de resistência e criação.  A vila de Regência, alheia ao lucro trimestral de 7,9 bilhões de reais1, paga o ônus do maior crime ambiental da história. Os bancos áridos modificam o fluxo dos barcos e das colheitas. A lama do capital financeiro insiste na diluição do caráter comunal e da autonomia da região. As armadilhas se mantêm silenciadas e silenciadoras como modelo branco-burocrático-assistencialista, que usa suas diferentes tecnologias de captura e escassez para disseminar narrativas “que não servem apenas para reiterar verdades consagradas mas para adaptá-las às frequentes explosões de violência cotidiana”2.

Quais são os contornos dessa economia de lucros e dívidas recordes? O que aconteceu depois da lama aos corpos de gente e aos corpos da terra que sofreram mais de 50 diferentes impactos 3?

Do rompimento dos limites, outras existências se conectam como as raízes da restinga, protegidas do olhar midiático, superficial e colonizador. Fios tecidos em espaço nobre, natural e humanamente singular. As correntes de ancestralidade, desejos, imaginários e outras perspectivas são bordadas entre remadas, guaíbas e carebas. Elas ainda estão lá. Pensar nesse rio é também pensar em invisibilidades e sombras. Como deslocar a percepção para olhar os afluentes de um possível comum? Como fundar relações mais salutares? Todos os corpos líquidos se comunicam e se alimentam mutuamente. Como rio e lagoa, como mar, rio, como gente. Como?

 
 

1 lucro líquido da Vale do Rio Doce obtido no primeiro trimestre de 2017. Fonte: http://www.vale.com/brasil/pt/aboutvale/news/paginas/financial-report-1q17.aspx. Acesso em 12 de julho de 2017.
 

2 SOVIK, LIV. Aqui não tem branco. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. Pg.44.
 

3 LEONARDO, F.; IZOTON, J.; VALIM, H. CREADO, E. TRIGUEIRO, A. SILVA, B. DUARTE, L. SANTANA. N. Rompimento da barragem de Fundão (SAMARCO/VALE/BHP BILLITON) e os efeitos do desastre na foz do Rio Doce, distritos de Regência e Povoação, Linhares (ES). Relatório de pesquisa. GEPPEDES. 2017

http://www.greenpeace.org.br/hubfs/Campanhas/Agua_Para_Quem/documentos/Greenpeace_FozRioDoce.pdf

 

 

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